sábado, 24 de janeiro de 2015

Boyhood _ da Infância à Juventude

Escrito e dirigido por:Richard Linklater


         "Sabe quando dizem aproveite o momento?Não sei,mas acho que é o                   contrário.Como se o momento nos aproveitasse"


   Eu sou uma grande fã de Richard Linklater,particularmente de sua trilogia "Antes" composta pelos filmes: Antes do Amanhecer,Antes do por do sol e Antes da Meia Noite (estrelados por Julie Delpy e Ethan Hawke) onde ele já mostrava sua sensibilidade para transformar as coisas mais simples e mundanas em pequenas obras-primas com estudos de personagens profundos.
  Mas a minha admiração pelo cineasta se deve,principalmente,pela paixão e dedicação com que realiza seus projetos.E é isso que faz de Boyhood um filme tão especial. Filmado ao longo de 12 anos,acompanhando o crescimento e envelhecimento dos atores e do próprio diretor que se reuniam durante algumas semanas todo ano para se dedicarem a esse lindo projeto.
 O mais encantador em Boyhood é a sua simplicidade.Acompanhamos a vida de Mason Jr. dos 6 aos 18 anos,como uma criança comum lidando com situações mundanas,captadas por Linklater de maneira realista e ao mesmo tempo poética.
 A identificação com os personagens e as situações apresentadas é imediata.A trilha sonora e as referências a cultura pop acompanham os anos e a todo tempo nos pegamos pensando "Eu escutava essa música naquele ano" ou "Eu também estava no lançamento desse livro" o que nos aproxima ainda mais dos personagens,inclusive trazendo um sentimento de nostalgia a quem viveu a infância na mesma década que Manson.
 É muito fascinante observar o crescimento de Mason (e seu intérprete Ellar Coltrane) e sua irmã Samantha (interpretada por Lorelei Linklater,filha do diretor),mas o roteiro não deixa de lado aqueles que o cercam. Acompanhamos o drama da mãe do garoto - interpretada maravilhosamente bem por Patricia Arquette - que apesar de toda a sua dedicação aos filhos parece sempre fazer escolhas erradas quando se trata da sua vida amorosa.E o amadurecimento tardio do pai garoto(que é o meu personagem favorito do filme,interpretado por Ethan Hawke,com todo seu carisma).



O filme entende que o que nós somos é formado por um conjunto de momentos,pelo lugar onde nascemos e até mesmo pelas posições ideológicas daqueles com quem vivemos,especialmente nossos pais.
 Linklater também não priva seu protagonista de perdas.Pessoas entram e saem de nossas vidas,muitas vezes sem cerimônia e com poucas chances de reencontro,mas isso faz parte da experiência de viver.
 A montagem de Sandra Adair é muito eficiente ao fazer com que todos esse momentos façam sentido,sem que o filme fique confuso ou evasivo.E imagino que escolher o que entraria no filme e o que ficaria de fora em um material de 12 anos de filmagem não tenha sido uma tarefa muito fácil.
 É quase impossível chegar ao fim de Boyhood sem ficar feliz por Manson que apesar de todos os pequenos traumas,sobreviveu (ao menos até ali) a essa desventura constante que é a vida.Assim como todos nós.

Indicado ao Oscar em seis categorias: Melhor Filme,Melhor Diretor(Richard Linklater),Melhor Ator Coadjuvante(Ethan Hawke),Melhor Atriz Coadjuvante(Patricia Arquette),Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem
  

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ida

Dirigido por: Pawel Pawlikowski
Roteiro de: Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz





                                        "_E o que acontece depois?
                                          _Os problemas de sempre.A vida." 

 
  Representante da Polônia na categoria de melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2015,Ida se inicia com um dialogo entre a madre-superiora do convento e a protagonista - que até então conhecemos como Anna. É determinado pela religiosa que a jovem noviça visite sua única parente viva,uma tia -cuja existência a garota desconhecia - antes da cerimonia em que faria os votos de celibato e pobreza que a tornariam freira.
  Ao encontrar a tia - juizá Wanda - lhe é revelado informações importantes sobre si mesma: é judia,seu nome verdadeiro é Ida Lebentein e seus pais morreram durante a Segunda Guerra.
  As duas mulheres partem em uma viajem até a Vila onde onde os pais de Ida desapareceram,em busca de repostas sobre como morreram e onde estão enterrados.Essa busca é apenas a superficial ,no íntimo as duas personagens buscam coisas distintas: Wanda procura enfrentar o passado e Ida encontrar sua própria identidade da qual fora esvaziada no convento.
  Agata Trzebuchowska,dona de grandes olhos escuros,concede a ida uma aura de ingenuidade e fascinação pelo desconhecido.Ao mesmo tempo em que Agata Kuleza interpreta a juizá Wanda como uma mulher deprimida e atormentada pelo passado que usa a bebida,o cigarro e até mesmo o sexo para tentar esquece-lo,e usa a aparição da sobrinha como desculpa para finalmente enfrenta-lo.
 Completando o elenco temos Dawid Ogrodnik que interpreta Lis,o jovem saxofonista que pega carona com a dupla principal,é o único personagem do filme que não é deprimido,atormentado por acontecimentos passados e incapaz de seguir em frente,pelo contrário,demonstra otimismo e expectativas com o futuro.



  O filme se passa 1962,uma época em que a Polônia ainda possuía imensa cicatrizes do passado recente,o Holocausto,e do antissemitismo ainda muito forte.e é interessante notar como os elementos visuais do filme representam essa época sombria.
 A câmera do diretor Pawel Pawlikowski é quase sempre estética e seus enquadramentos são longos e bem-pensados.
 Fotografado maravilhosamente por Ryszard Lenczewski e Lukaz Zal que escolheram o preto-e-branco e uma razão de aspecto reduzida em 1.37:1 - o formato de tela quadrado,os filmes atuais são filmados com a razão de aspecto 1.85:1 ou 2.35:1,o formato de tela retangular.Esses elementos são usados para ressaltar a atmosfera opressiva do país gravemente ferido pela Guerra.
 E o modo como os personagens são fotografados na parte inferior do quadro,pequenos e incompletos,demostra sua insignificância diante do peso histórico que carregam.
 O final emblemático faz parecer que para Ida tudo volta a ser exatamente como antes do começo da jornada.mas pequenas cenas sutis - como o riso que escapa durante um jantar e o olhar perdido durante uma oração - mostram o impacto da jornada na garota,que sempre estará lá,apesar do plano que encerra o longa ilustrar como deixou sua história e a do país para trás.

Indicado ao Oscar em duas categorias: Melhor Filme Estrangeiro e Fotografia.

  

 


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Whiplash _ Em Busca da Perfeição

                  

Dirigido e Roteirizado por:Damien Chazelee


             "Não há duas palavras mais danosas do que 'Bom Trabalho' "

 

  Ao assistir Whiplash - em busca da perfeição,foi inevitável lembrar de Cisne Negro - clássico moderno de Darren Aronofsky. Apesar de serem filmes muito diferentes em estética e tom,são muito parecidos em sua temática.A Nina interpretada por Natalie Portman em Cisne Negro e o Andrew interpretado por Miles Teller nesse Whiplash possuem a mesma obsessão:encontrar a perfeição através da arte.Mesmo que isso custe sua saúde física e mental.
  O longa acompanha a história de Andrew Newman um jovem baterista que sonha em ser o melhor de sua geração.Seu sonho parece mais próximo quando o lendário maestro Terence Fletcher (JK Simmons) o convida a tocar em sua banda de jazz,considerada o berço de grandes talentos bem-sucedidos.Mas a postura rígida e militarista do mestre faz com que o garoto se dedique ao instrumento de uma forma obsessiva e auto-destrutiva.
  Esse é o principal tema do filme: a linha tênue que separa ambição e obsessão;incentivo e abuso.




  Escrito e dirigido pelo jovem cineasta Damien Chazelle (de apenas 29 anos,esse é seu segundo longa como diretor), que conduz o filme com o talento e a segurança de um diretor veterano com anos de carreira. Chazelle faz decisões acertadíssimas ao fugir do obvio em várias ocasiões,como ao evitar muitos diálogos expositivos e conduzir o filme através das imagens,com sua câmera frenética faz constante uso de closes na expressão dos atores quando estão tocando ou conduzindo a orquestra.Usa o suor e o sangue como símbolos visuais do esforço máximo de Andrew,e principalmente nunca deixa a música em segundo plano,ela é uma presença tão constante no filme quanto na vida dos personagens.
  Um dos pontos mais positivos do filme é o elenco.
  Miles Teller faz de seu Andrew nossa figura de identificação máxima,acreditamos em sua paixão e torcemos por ele.Ao mesmo tempo não deixa que seu personagem se transforme no clássico herói trágico adicionado toques excessivos de ambição e arrogância,e claro,sua obsessão que prejudica não só a si próprio,mas também as pessoas com quem convive.Sua relação com a garota Nicole - interpretada pela linda Melissa Benoist - é deveras destruidora.
 O veterano JK Simmons explora ao máximo um personagem feito sob encomenda para sua persona dominadora,fazendo de Fletcher um homem assustador,exigente e quase militarista (em vários momentos me lembrou o sargento Hartman -vivido por R. Lee Ermey no clássico Nascido para Matar), e competente de forma quase sobrenatural. Mas humaniza seu personagem com momentos de sensibilidade - como quando chora ao lembrar de um ex-aluno - e até de gentileza - ao falar com a filha pequena de um amigo. Simmons é competente na difícil tarefa de fazer com que o público entenda sua motivação e seu amor pela música, o que nos leva a simpatizar com ele mesmo questionando seus métodos o tempo todo.
  Outro fator que deve ser citado é a montagem brilhante de Tom Cross.Os cortes tem o mesmo ritmo da música o que dá ao filme um ritmo vibrante.Me pareceu um pouco excessiva no começo (lembrando outro filme de Aronofsky - Réquiem para um Sonho) mas chega ao ápice na genial cena final.
   Alias, a cena final - que dura mais ou menos 10 minutos e praticamente nenhuma palavra é dita - o talento combinado de Damien Chazelle e Tom Cross faz com que seja a melhor e mais impactante de todo o longa.O diretor filma a orquestra de forma bastante atipica e Cross a monta com seus cortes acompanhado o ritmo vibrante do jazz.Também é o momento em que Andrew e Fletcher finalmente entram em sintonia se tornado um só,unidos pela música.
  Whiplash poderia ser mais um filme clichê,com herói e vilão convencionais,com a queda e ascensão do protagonista e todos os elementos já conhecidos.Mas graças ao talento dos envolvidos se tronou uma preciosidade.
  É um filme poderoso,angustiante em alguns momentos e muito significativo.Uma obra que,com certeza,merece os aplausos de reconhecimento que seu protagonista tanto cobiça.

Indicado ao Oscar em cinco categorias: Melhor Filme,Roteiro Adaptado,Montagem,Mixagem de Som e Ator Coadjuvante(JK Simmons).