segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Caminhos da Floresta

Dirigido por: Rob Marshall

Escrito por:James Lapine - Músicas escritas por:Stephen Sondheim



             "Cuidado com a história que você conta.As crianças ouvirão"

    
 Em 1986,chegou aos teatros americanos a peça Into the Woods escrita por James Lapine e Stephen Sondheim.Ela trazia uma proposta inovadora de misturar vários contos dos irmãos Grimm em uma única história.Repleta de canções e personagens encantadores,o musical foi um sucesso,chegando na Broadway no ano seguinte.Agora,quase trinta anos depois,finalmente a obra foi adaptada para o Cinema,pelas mãos de Rob Marshall - diretor do famoso musical Chicago(2001) - e com roteiro de um dos autores originais James Lapine.
  Caminhos da Floresta reúne Chapeuzinho Vermelho,Rapunzel,João do Pé de Feijão e Cinderela em uma fábula.O ponto de interseção dessas histórias é o casal formado pelo padeiro e sua esposa que para escapar de uma maldição lançada pela Bruxa Malvada,eles precisam reunir uma vaca branca como leite,um sapatinho dourado como ouro,fios de cabelo da cor de milho e uma capa vermelha como sangue.
  O roteiro é bastante eficiente ao introduzir elementos de todas essas histórias sem chamar a atenção para eles e desviar da trama principal - partindo do principio de que todos já conhecem essas histórias,que já foram contadas e recontadas nas mais diversas mídias.
 O problema é a montagem ,muito mecânica,que faz com que o desenvolvimento da história soe episódico e repetitivo,também fazendo com que o filme pareça ser mais longo do que realmente é.
 A direção de Rob Marshall é bastante irregular,principalmente na condução dos atores e nos aspectos visuais.Mas quando entra na sua zona de conforto,os números musicais, Marshall acerta em cheio.É difícil não se emocionar com a plasticidade,elegância e beleza da cena em que Cinderela canta na escadaria do palácio.Ou não se divertir com o "duelo musical" dos dois príncipes em uma cachoeira com o exagero tipico dos príncipes dos mais clássicos musicais da Disney.
 Visualmente o filme é muito impressionante.O design de produção é muito eficiente na criação dos interiores da floresta  e dos castelos e o mesmo esmero é visto na maquiagem,nos efeitos visuais e no figurino.Algumas caracterizações funcionam como a da Bruxa Malvada,outras parecem uma transposição desleixada do teatro como a do Lobo.




 Uma irregularidade constante está nas atuações.Obviamente Meryl Streep rouba a cena sempre que aparece,seja como uma ameaçadora feiticeira,seja em momentos mais dramáticos,com destaque para a cena em que canta para Rapunzel.Chis Pine surge encantadoramente canastrão como o charmoso e mulherengo Príncipe Encantado.Infelizmente,Billy Magnussen que interpreta seu irmão não consegue se manter à altura.E se Anna Kendrick confere doçura e força à Cinderela,o mesmo não pode ser dito de Mackenzie Mauzy que faz de Rapunzel a típica mocinha em perigo,sem personalidade.Duas boas surpresas são Trace Ullman como uma travessa e divertida Chapeuzinho Vermelho e Daniel Huttlestone como João que tem momentos memoráveis. Johnny Depp mais uma vez empresta sua persona a outro personagem esquisito,quase no piloto automático - mais uma vez comprovando minha teoria de que ele interpreta o mesmo personagem em todos os filmes. Emily  Blunt e James Corden possuem uma ótima química e seus duetos rendem momentos divertidíssimos.
 É uma pena que,principalmente no terceiro ato, o roteiro tenha plot twits com soluções fáceis e rápidas e alguns que simplesmente não fazem o menor sentido.
 Mas mesmo com altos e baixos constantes Caminhos da Floresta é um filme muito divertido,graças ao carisma de seus personagens e aos fantásticos números musicais.




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Teoria de Tudo

Dirigido por: James Marsh

Escrito por:Anthony McCarten



                                      "Onde há vida,há esperança"

 
  Muitas pessoas conhecem a figura de Stephen Hawking. O sujeito na cadeira de rodas elétrica,que move apenas as sobrancelhas e fala através daquela voz robótica.Mas poucas pessoas (fora da área cientifica) conhecem o seu trabalho e sua importância como físico.Menos pessoas ainda conhecem sua vida pessoal - que ele próprio narrou no livro Minha breve história.
 Com apenas 21 anos foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica e os médicos lhe deram uma expectativa de vida de apenas 2 anos - hoje ele já está com 70,o que significa que viveu quase 50 anos a mais que o previsto,até agora.A doença que paralisou seu corpo em nada afetou sua mente e mesmo durante seu definhamento físico cada vez maior ele foi capaz de desenvolver sua teoria sobre buracos negros e a origem do universo e publicar o livro Uma Breve História do Tempo.
 É realmente impressionante notar como mesmo com uma doença tão terrível Hawking ainda foi capaz de viver uma vida feliz e normal.Depois do diagnostico se casou com Jane Hawking com quem teve três filhos.A doença nem mesmo impediu que tivesse um caso com a enfermeira que cuidou dele por um tempo. Sempre que cede palestras e entrevistas ele mantém o bom humor e a sinceridade - que as vezes causa polêmicas como quando fala sobre religião e sua descrença em Deus ou sua opinião contraria à exploração espacial.
 Dito isso,é triste que A Teoria de Tudo,apesar de merecer créditos por não transformar sua história em um melodrama barato ( o que seria fácil ),não esteja à altura do homem que o inspirou.
 Quem conhece o trabalho do diretor James Marsh - especialmente os documentários O Equilibrista(2008) e Projeto Nim(2011) - provavelmente sabia que sua biografia de Stephen Hawking deixaria um pouco de lado seus grandes feitos e seria focada no lado mais humano do físico e em suas relações pessoais,especialmente com sua esposa Jane. O que é uma abordagem muito positiva.
 O problema é que o roteiro não se dá ao luxo de uma construção paciente.Já na primeira cena o protagonista conhece Jane e se apaixona,sendo imediatamente correspondido. Começa a mostrar os sintomas da esclerose,é diagnosticado,passa por uma pequena crise existencial superando-a em seguida,tudo isso no primeiro ato.O longa parece estar com pressa para chegar a parte realmente dramática e salta sobre a introdução numa velocidade que compromete o desenvolvimento dos personagens e nosso envolvimento com eles.
 E enquanto o roteiro de Anthony McCarten tenta ao máximo evitar o melodrama e o exagero,a direção de James Marsh faz exatamente o contrário.Ele abre o filme com Hawking disparando em sua bicicleta o que parece quase gritar como aquele jovem é cheio de vida o que faz com que doença que o acometerá depois seja ainda mais trágica. Na cena do diagnostico Marsh enfoca o médico de uma forma que o faz parecer uma figura de pesadelo, uma decisão estética estranha e exagerada.
 Por outro lado,a fotografia de Benoit Delhomme é linda remetendo a filmes caseiros,com suas cores quentes e nostálgicas - apesar de também se render aos exageros em alguns momentos.A trilha sonora de Alexandre Desplat - sempre genial - merece aplausos,assim como o trabalho do figurista Steven Noble,que é uma parte importantíssima  da composição do personagem de Hawking vestindo Eddie Remayne com roupas de números maiores  que parecem encolhê - lo ainda mais.




 Mas o maior mérito do filme encontra-se nas atuações -  que também são o principal motivo de toda a atenção que recebeu nas premiações.
 Eddie Redmayne - que já havia me impressionado como Marcus em Os Miseráveis - interpreta Stephen Hawking de maneira perfeita ( além de se parecer muito com ele ).Começa como um jovem brilhante e expressivo que demostra confiança e charme ao lidar com Jane. Retrata as deformidades físicas sofridas por Hawking no decorrer do filme com realismo e atenção pelos detalhes.Desde as mãos tortas,os pés arrastando - se pelo chão,os ombros caídos e a dicção tudo é bem retratado mostrando que o ator estudou bem de perto os efeitos da doença.E nas fases mais avançadas quando Hakwing mal podia mover os músculos do rosto,ele consegue se expressar com o minimo de recursos,como um levantar de sobrancelha,uma piscada ou simplesmente pelo seu olhar vivo e alegre.
 Felicity Jones,como Jane, é a imagem do otimismo e da dedicação.No começo,uma jovem alegre e cheia de vida que ao longo do filme vai ganhando as olheiras e a postura cansada que o sacrifico de cuidar sozinha do marido e dos três filhos trazem.Ao mesmo tempo em que demonstra força e competência nunca se tornando vítima da situação que está vivendo.
 Um elemento bastante positivo é o modo como o roteiro trata a relação entre Jane,Stephen e Jonathan (interpretado por Charlie Cox),fugindo do obvio que seria criar um provável triângulo amoroso já que os três personagens parecem estar cientes da situação na qual se encontram e das carências e limites uns dos outros.
 Porém,o filme foge de qualquer polêmica,suavizando o ateísmo de Hawking,e sempre retratando - o como um homem otimista e gentil, seus momentos de frustração duram apenas segundos e ele nunca os desconta em quem quer que seja - o que é admirável mas inverossímil. E o roteiro tropeça de vez no último ato ao incluir uma sequência de fantasia completamente desnecessária que,como se não bastasse,termina em um monólogo que poderia ter sido extraído dos mais baratos livros de auto - ajuda.  
 Com isso,A Teoria de Tudo se estabelece como um dos projetos menos inspirados de James Marsh. Uma cinebiografia tímida de uma figura que merecia bem mais e que se sustenta apenas em suas grandes atuações.

Indicado ao Oscar em cinco categorias:Melhor filme,Roteiro Adaptado,Ator (Eddie Redmayne),Atriz (Felicity Jones) e Trilha sonora (Alexandre Desplat).



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Trilogia O Poderoso Chefão

Digirida por: Francis Ford Coppola

Escrita por: Mario Puzzo e Francis Ford Coppola


(Os textos contém spoleirs dos três filmes)

O Começo:

                     

            James Caan,Marlon Brando,Francis Ford Coppola,Al Pacino e Jonh Cazele

   

 Mario Puzzo nasceu em uma família de imigrantes sicilianos. O escritor retratou sua herança cultural em livros como “A Guerra Suja” e “O Imigrante Feliz”,mas o sucesso só veio quando recebeu um adiantamento de 5 mil dólares(uma fortuna na época) para escrever um romance sobre a máfia que dominava sua Nova York natal.Cheio de dividas de jogo Puzzo aceitou o desafio e o livro lançando em 1969 passou meses no topo da lista dos mais vendidos.
  
 A Paramont Pictures tinha os direitos para produzir a adaptação do romance de Mario Puzzo:O Poderoso Chefão(The Godfather,no título original). Os produtores queriam um diretor italiano ou de ascendência italiana. O filme foi oferecido a Peter Bogdamovich,Sergio Leone e Elia Kazan.No final, Francis Ford Coppola foi escolhido para levar o projeto para o cinema.

 O jovem cineasta, que na época tinha apenas 33 anos e pouquíssimos filmes no currículo, foi escolhido devido a sua ascendência italiana,e devido ao fato de ser um cineasta jovem os produtores da Paramount acharam que seria fácil controlá-lo.

 Estavam completamente enganados. Coppola, que escreveu o roteiro ao lado de Mario Puzzo,não aceitava as convenções do estúdio.Inicialmente o filme se ambientaria na década de 1970 para poupar custos,mas com muito dificuldade Coppola conseguiu convencê-los que o filme se passasse na mesma época em que o livro é ambientado nas décadas de 40 e 50.
  
 O plano inicial seria filmar nos estúdios da Paramount em Los Angeles,mais uma vez com o objetivo de tornar a produção mais barata.Coppola e o diretor de arte Dean Tavoularis também conseguiram que as filmagens fossem realizadas em Nova York onde filmaram em mais de cem locações.
  
 A escolha do elenco também gerou muitos conflitos entre o cineasta e os produtores.Desde o começo Coppola queria Marlon Brando no papel de Vito Corleone,o que foi negado pelo estúdio devido a sua excentricidade e sua fama de ser  um ator muito difícil de se trabalhar.  

 "Se você disser o nome de Marlon Brando mais uma vez, está despedido", disse o presidente da Paramount na época para o diretor. Coppola fez um teste com Marlon Brando (alegando ser um teste de maquiagem) e o mostrou aos produtores. Por fim, após assistirem ao teste concordaram que Brando nos presenteasse com uma das melhores interpretações de sua carreira.

 Ter Al Pacino como Michael Corleone foi ainda mais difícil. Pacino,que na época era um mero desconhecido que até então só havia feito teatro,fez inúmeros testes.O preferido do estúdio para interpretar Michael era James Caan(que acabou ficando com o personagem Sonny Corleone).Foram feitos dezenas de  testes com vários atores,mas Coppola acabou vencendo mais essa.Os produtores concordaram em deixar Al Pacino no elenco após assistirem a filmagem de uma das  cenas decisivas do primeiro filme em que Michael mata Solazzo e o chefe de  policia McClusky no restaurante.Essa foi a primeira cena a ser filmada.

 Depois de todas essas brigas com o estúdio na pré – produção Coppola começou as filmagens com um orçamento modesto que foi rapidamente estourado. Durante a primeira semana de filmagens o diretor quase foi demitido várias vezes, mas graças a sua persistência,talento e paixão pelo projeto conseguiu terminar essa obra-prima que foi um sucesso de público e crítica e garantiu a Coppola total liberdade artística nas duas continuações.


O Poderoso Chefão (1972)


                   "Vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar"

    Dizem que todo grande filme deve parecer novo a cada vez que você o revê. Partindo desse principio posso afirmar,com certeza,que O Poderoso Chefão é um grande filme.Mais do que grande,na verdade,um dos maiores de todos os tempos.Revendo-o dessa vez percebi vários detalhes que haviam passado despercebidos das vezes anteriores e todos eles são importantes para a trama e para o desenvolvimento dos personagens de alguma forma.Por isso,é até difícil escrever sobre ele,quando assistir novamente daqui a um tempo,coisas novas serão descobertas e esse texto não será o suficiente.Mas,pensando bem,nenhum nunca vai ser.

 Francis Ford Coppola contou com a parceria de grandes artistas para construir a obra-prima que O Poderoso Chefão se tornou. A elegante trilha sonora composta por Nino Rota é absolutamente memorável.E a fantástica fotografia âmbar de Gordon Willis –“o príncipe das trevas,mago de luz e sombra” - talvez seja a responsável pelo filme ter envelhecido muito menos do que vários outros da década de 1970.Esses elementos combinados a direção clássica e cuidadosa de Coppola faz com que a máfia retratada na trilogia tenha uma certa elegância,diferente da máfia mais suja,sem glamour dos filmes de Martin Scorsese,por exemplo.

 A introdução do filme é perfeita. Todo o discurso inicial de Bonasera,explicando porque foi à procura da ajuda do Padrinho,sem revelar seu rosto escondido nas sombras por uma parte da cena.Assistimos aquelas negociações sombrias no escritório de  Don Vito Corleone (Marlon Brando),onde aos poucos vamos entendendo quem são aqueles personagens e a influência que Don Corleone tem sobre eles,nessa política de troca de favores constante.

 Durante toda sequência do casamento da filha de Don Vito,Connie (Talia Shire),somos apresentados a todos os personagens de forma magistral,já conhecendo as personalidades de cada membro da família Corleone e suas funções.O filho mais novo de Don Vito,Michael (Al Pacino),leva pela primeira vez sua namorada Kay (Diane Keaton) para conhecer sua família,ela é uma novata naquele universo assim como nós e somos introduzidos a ele através das apresentações que Michael faz a ela.Nos primeiros trinta e cinco minutos de filme nos é revelado toda a teia delicada de relações que se desdobrará pela trilogia.

 Somos apresentados a personagens fascinantes como Sonny – interpretado por James Cann – o primogênito de Vito.Já na introdução vemos como ele é dono de um gênio impulsivo,ignora todas as regras e age sempre com violência mesmo em impasses banais.

 O personagem de Robert Duvall,Tom Haggen,o filho adotivo,o consigliere e advogado da família sempre teve minha especial atenção,pois mesmo não tendo sangue italiano foi adotado pela família.Sua expressão inabalável que mistura o leve sorriso com um cinismo inteligente faz dele uma peça chave e discreta na engrenagem corlêonica.

 E claro, o filho caçula Michael,que começa o primeiro filme da trilogia como um idealista.Ao contar para Kay uma história de chantagem e tortura comandada por seu pai,ele diz: “Essa é minha família Kay,não eu.”Porém ao longo dos filmes, o caçula que tentou fazer uma rota oposta ao ser condecorado como herói de guerra,acaba também caindo sob a maldição da família.
  



 O filme é recheado de cenas marcantes que ficaram gravadas na memória de qualquer cinéfilo. Como a cena em que depois de recusar o pedido educado de Tom Haggen para colocar Jonny Fontane(Al Martino)no elenco de seu próximo filme o produtor Jonh Woltz(Jonh Marley),apaixonado por cavalos,acorda com a cabeça de seu cavalo mais valioso em sua cama.Em seguida ele escala Fontane para o filme.É uma cena poderosa e chocante que mostra o poder de persuasão de Don Corleone.

 O atentado contra Don Vito em que ele é baleado por inimigos e seu filho do meio Fredo ( Jonh Cazele) não é capaz de protegê-lo.

 A “conversão” de Michael.No momento em que conversa com os irmãos sobre o assassinato dos homens que tentaram matar seu pai,Michael assume sua postura de Don pela primeira vez,sentado com as pernas cruzadas e os braços dos dois lados da poltrona,a câmera se aproxima dele lentamente em um zoom in até focar seu rosto,e nesse momento sutil percebemos que ele está se envolvendo definitivamente com os negócios da família que tanto tentou evitar.Essa cena culmina no assassinato do chefe de policia e Sollozo no restaurante,que também é uma das mais marcantes do longa.

 Todas as sequências com Michael refugiado na Sicilia são fantásticas,desde sua paixão arrebatadora, o casamento até a morte de Apolonia.

 O fuzilamento de Sonny no pedágio,a morte de um personagem tão importante de uma forma tão brutal e violenta causa um choque em qualquer espectador.

 A maravilhosa atuação de Marlon Brando como Don Vito Corleone nos proporciona grandes momentos no filme. Quando Michael visita o pai no hospital ele derrama uma lágrima e sorri,sem dizer uma palavra percebemos o carinho e amor que sente pelo seu filho caçula.Ao saber sobre os assassinatos cometidos por Michael ele fecha os olhos e balança a cabeça desolado,naquele momento percebemos que aquilo não era o que ele desejava o que é comprovado em um cena posterior em que diz para o filho: “Eu sempre pensei em Sonny,não você.Você seria senador,governador,talvez até presidente”.O momento em que descobre sobre a morte de Sonny: “Consiglire,diga para seu Don o que todos já parecem saber”.O suspiro que solta ao ouvir sobre a morte do filho mais velho e o modo como fala em seguida como se pronunciar cada palavra causasse um dor imensurável.Essa cena culmina no momento em que leva o corpo de Sonny ao coveiro Bonasera e pede que ele o ajude pois não quer  que sua mulher veja o filho naquele estado:”Veja o que eles fizeram com o meu garoto”,é uma cena que me emociona muito,toda vez,não importa quantas vezes a veja. E claro,a morte de Don Vito,momento espetacular,todo improvisado por Marlon Brando em que Don Vito brinca com seu neto no jardim antes de sucumbir a um ataque cardíaco.




 A cena do batizado, em que Michael assume a posição de padrinho do sobrinho comprometendo-se a “renunciar a Satã e toda sua obra”,enquanto isso os chefes da cinco famílias inimigas dos Corleone são fuzilados a mando dele.Coppola alterna cenas dos dois eventos usando a montagem paralela de  maneira brilhante.

 Michael toma conta do escritório de seu falecido pai.O antigo idealista se transforma no novo chefão e o filme termina no mesmo lugar em que começou.Kay observa os homens misteriosos demonstrarem respeito por Don Corleone.Enquanto continua a olhar a porta se fecha.

O Poderoso Chefão parte II (1974)




  
  Na segunda parte da trilogia Francis Ford Coppola e Mario Puzzo foram ainda além e contaram duas histórias paralelamente.

 A primeira é a continuação do primeiro filme,agora com Michael mais maduro e ousado no controle da família.A outra é a infância e juventude de Vito Andolini,que mais tarde seria conhecido como Don Vito Corleone (versão jovem interpretada por Robert De Niro).

 Acompanhar essas histórias é interessante não só pela curiosidade de saber como Vito se tornou um homem tão poderoso, mas acompanhá-las paralelamente ressalta a diferença das atitudes de pai e filho na mesma posição de poder.

 A saga de Don Vito começou num mar de  violência,muito bem retratada.O menino indefeso testemunha o assassinato a sangue frio da mãe,durante uma tentativa de vingar a morte do marido e do filho mais velho e de proteger o mais novo.Obra de um antigo chefe da máfia siciliana.Deportado para os Estados Unidos,quando jovem descobre as sutilezas da criminalidade de Nova York.Ele entende que para proteger sua família era preciso certa influência emocional e troca de favores difíceis entre as pessoas.Essa sensação de débito era mais eficaz que o medo,a ameaça e a violência.



  E essa é a grande diferença entre Vito e Michael.Os motivos que levaram Vito a desejar o poder e mantê-lo foi a sua família.A família era o mais importante para ele,sua prioridade máxima.Michael acaba traindo esses ideais,se torna um homem vingativo,incapaz de perdoar,paranóico com medo da traição e passa por cima de qualquer um que atravesse seu caminho,incluindo seus irmãos.Também afasta-se de Kay e seus filhos devido a sua obsessão.
  
 Um dos detalhes que reparei na mais recente visita a trilogia foi a mudança no figurino de Kay.No primeiro filme ela sempre aparece com roupas bem coloridas – principalmente laranja – no segundo,a medida que seu casamento vai piorando a cor das suas roupas muda,ela passa a usar cinza,beje e tons mais escuros,sem vida.Quando está prestes a pedir divorcio a Michael vemos uma cena onde ela aparece costurando uma roupa laranja,como se ao finalmente se separar do marido a cor pudesse voltar a sua vida.
  
 A cena em que diz ao marido que está partindo e levando as crianças com ela é uma das mais intensas de toda trilogia,graças as grandes atuações de Diane Keaton e Al Pacino.
  
 O segundo filme também é recheado de cenas marcantes como o momento em que Kay vai visitar seus filhos e Michael fecha a porta na cara dela.Assim como no primeiro filme,uma porta é fechada para Kay num momento importante da vida de Michael.

 O beijo de Michael em Fredo “Eu sei que foi você Fredo.Você partiu meu coração.”Meu momento preferido de toda a trilogia.Toda a sequência dos irmãos em Cuba é fantástica.O tempo todo Michael está implorando para que o irmão negue o que fez,mas ao contrário,ele,ingenuamente,se denuncia.
  
 A morte de Fredo.Michael espera a morte de sua mãe para cometer seu pior ato,algo que Don Vito condenaria,planejar o assassinato de seu irmão.

 A cena final é um flashback do aniversário de Don Vito (Marlon Brando deveria estar nessa cena,mas não apareceu no dia das filmagens,então Coppola resolveu fazer sem ele.E é impressionante como sentimos a presença de Don Vito mesmo ele não estando em cena).Michael conta aos irmãos que se alistou no exercito e vai lutar na Segunda Guerra Mundial,essa decisão é amplamente desaprovada pelos irmãos,especialmente Sonny e enquanto todos comemoram o aniversário do pai,fica sozinho,fumando na cozinha o que mostra a sua inadaptação à família.

 O Poderoso Chefão Parte III (1990)



  
 “A Morte de Michael Corleone” era o titulo concebido originalmente por Coppola.Foi recusado pelos produtores que preferiram dar sequência ao Parte II.Decisão que desagradou muito o diretor,que disse nunca ter imaginado os três filmes como uma trilogia,mas sim como dois filmes e um epilogo.

 Na terceira parte,muito mais emotiva e contemplativa,Michael Corleone está arrependido.Depois de passar tantos anos no controle da família o caçula dos Corleone passa a tentar legalizar a todo custo seus negócios e sua vida.Michael está em busca de redenção.Perdão pelas suas hipocrisias e desconfianças,mas principalmente,perdão pelo sangue em suas mãos.

 O terceiro filme é bastante criticado pelos fãs da trilogia que o consideram inferior aos anteriores. Acredito que um dos principais motivos é a falta que sentimos de alguns personagens. Dos cinco filhos de Vito Corleone apenas dois ainda estão vivos - Tom Haggen morreu em algum ponto dos dezesseis anos que se passaram entre a segunda  e a terceira parte – e apesar do filme ser uma conclusão da  história de Michael a relação dos irmãos,que era um dos elementos mais interessantes dos filmes anteriores faz bastante falta.

 E a atuação de Sofia Coppola como Mary Corleone – filha de Michael – é, talvez o ponto mais fraco de toda a trilogia. Não acho que ela chegue a comprometer o filme como um todo, mas a cena da sua morte no teatro, por exemplo,chega a ser constrangedora.

 Mas vamos falar das coisas boas.

 O filme possui uma trama bem corajosa que envolve uma das maiores polemicas envolvendo a Igreja Católica – a morte mais do que suspeita do papa João Paulo I.

Vicent,o filho de Sonny,interpretado por Andy Garcia é um personagem importante no terceiro filme e um dos mais interessantes da trilogia.Ele é uma mistura de Sonny,Michael e Fredo com um toque estrategista digno de Vito.




  

   Outro elemento bem interessante dessa parte final -e que também ficaram mais claras nessa última vez que revi - são as rimas visuais que esse filme faz com os anteriores especialmente o primeiro.

 Em um momento Vincent para controlar sua frustração e não sucumbir a raiva morde a própria mão em punho,mesmo gesto de Sonny no primeiro filme quando descobre que a irmã estava sendo agredida pelo marido.

 As cenas das mortes de Vito e Michael também são rimas visuais interessantes.São visualmente parecidas mas o contexto em que ocorrem é completamente diferente.

 Apesar de reconhecer os problemas dessa terceira parte,também reconheço que ela possui momentos memoráveis.Como o que Tony,filho de Michael,canta para ele na Sicilia e ele se lembra de grandes  momentos de sua vida e das perdas que teve.

  A confissão de Michael a um cardeal, onde expõe os seus pecados.Nesse momento são expostos todos os motivos pelos quais Michael nunca foi,nem poderia ser,o Don que seu pai foi.

 “Eu continuo tentando sair,mas eles sempre me puxam de volta”.Nesse momento Michael mostra como aquela não era a vida ele queria.É uma grande momento,culminado em seu arrependimento pela morte de Fredo.

 O grito silencioso de Michael na escadaria após a morte de sua filha.Há momentos na vida em que a dor é tão intensa que não é possível sequer gritar.Mais um momento poderoso devido a atuação de Al Pacino,o ator que ninguém – exceto Coppola – queria e que praticamente carrega esse filme todo sozinho.

  A morte de Don Michael.Sozinho,velho,fraco e doente.Decadência completa e um contraste brusco com a morte do pai,que morreu enquanto brincava com seu netinho.



A Trilogia e o Oscar:

  A primeira parte foi indicada em 10 categorias e venceu: Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Ator (Marlon Brando)
  Na cerimônia de 1973,Marlon Brando se recusou a receber o prêmio,enviando uma representante indígena para protestar a forma com que os Estados Unidos tratavam os povos nativos.
  Al Pacino,James Caan e Robert Duvall foram todos indicados a Melhor Ator Coadjuvante, pelo mesmo filme.
  Nino Rota conquistou sua primeira indicação ao Oscar com O Poderoso Chefão.O compositor,porém foi desclassificado por reutilizar trechos das músicas que compôs para “Fortunella” de Federico Fellini.

  A segunda parte teve 11 indicações e venceu:Melhor Filme ( foi a única sequência a vencer nessa categoria) Diretor (Francis Ford Coppola) Ator Coadjuvante (Robert De Niro), Roteiro Adaptado, Direção de Arte e Trilha Sonora (Nino Rota).
Al Pacino foi indicado mais uma vez (dessa vez como ator principal) e Talia Shire foi indicada como coadjuvante.

 A terceira parte foi indicada em 7 categorias,incluindo Melhor Filme,Diretor e Ator Coadjuvante(Andy Garcia),mas não venceu nenhuma.


  

sábado, 24 de janeiro de 2015

Boyhood _ da Infância à Juventude

Escrito e dirigido por:Richard Linklater


         "Sabe quando dizem aproveite o momento?Não sei,mas acho que é o                   contrário.Como se o momento nos aproveitasse"


   Eu sou uma grande fã de Richard Linklater,particularmente de sua trilogia "Antes" composta pelos filmes: Antes do Amanhecer,Antes do por do sol e Antes da Meia Noite (estrelados por Julie Delpy e Ethan Hawke) onde ele já mostrava sua sensibilidade para transformar as coisas mais simples e mundanas em pequenas obras-primas com estudos de personagens profundos.
  Mas a minha admiração pelo cineasta se deve,principalmente,pela paixão e dedicação com que realiza seus projetos.E é isso que faz de Boyhood um filme tão especial. Filmado ao longo de 12 anos,acompanhando o crescimento e envelhecimento dos atores e do próprio diretor que se reuniam durante algumas semanas todo ano para se dedicarem a esse lindo projeto.
 O mais encantador em Boyhood é a sua simplicidade.Acompanhamos a vida de Mason Jr. dos 6 aos 18 anos,como uma criança comum lidando com situações mundanas,captadas por Linklater de maneira realista e ao mesmo tempo poética.
 A identificação com os personagens e as situações apresentadas é imediata.A trilha sonora e as referências a cultura pop acompanham os anos e a todo tempo nos pegamos pensando "Eu escutava essa música naquele ano" ou "Eu também estava no lançamento desse livro" o que nos aproxima ainda mais dos personagens,inclusive trazendo um sentimento de nostalgia a quem viveu a infância na mesma década que Manson.
 É muito fascinante observar o crescimento de Mason (e seu intérprete Ellar Coltrane) e sua irmã Samantha (interpretada por Lorelei Linklater,filha do diretor),mas o roteiro não deixa de lado aqueles que o cercam. Acompanhamos o drama da mãe do garoto - interpretada maravilhosamente bem por Patricia Arquette - que apesar de toda a sua dedicação aos filhos parece sempre fazer escolhas erradas quando se trata da sua vida amorosa.E o amadurecimento tardio do pai garoto(que é o meu personagem favorito do filme,interpretado por Ethan Hawke,com todo seu carisma).



O filme entende que o que nós somos é formado por um conjunto de momentos,pelo lugar onde nascemos e até mesmo pelas posições ideológicas daqueles com quem vivemos,especialmente nossos pais.
 Linklater também não priva seu protagonista de perdas.Pessoas entram e saem de nossas vidas,muitas vezes sem cerimônia e com poucas chances de reencontro,mas isso faz parte da experiência de viver.
 A montagem de Sandra Adair é muito eficiente ao fazer com que todos esse momentos façam sentido,sem que o filme fique confuso ou evasivo.E imagino que escolher o que entraria no filme e o que ficaria de fora em um material de 12 anos de filmagem não tenha sido uma tarefa muito fácil.
 É quase impossível chegar ao fim de Boyhood sem ficar feliz por Manson que apesar de todos os pequenos traumas,sobreviveu (ao menos até ali) a essa desventura constante que é a vida.Assim como todos nós.

Indicado ao Oscar em seis categorias: Melhor Filme,Melhor Diretor(Richard Linklater),Melhor Ator Coadjuvante(Ethan Hawke),Melhor Atriz Coadjuvante(Patricia Arquette),Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem
  

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ida

Dirigido por: Pawel Pawlikowski
Roteiro de: Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz





                                        "_E o que acontece depois?
                                          _Os problemas de sempre.A vida." 

 
  Representante da Polônia na categoria de melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2015,Ida se inicia com um dialogo entre a madre-superiora do convento e a protagonista - que até então conhecemos como Anna. É determinado pela religiosa que a jovem noviça visite sua única parente viva,uma tia -cuja existência a garota desconhecia - antes da cerimonia em que faria os votos de celibato e pobreza que a tornariam freira.
  Ao encontrar a tia - juizá Wanda - lhe é revelado informações importantes sobre si mesma: é judia,seu nome verdadeiro é Ida Lebentein e seus pais morreram durante a Segunda Guerra.
  As duas mulheres partem em uma viajem até a Vila onde onde os pais de Ida desapareceram,em busca de repostas sobre como morreram e onde estão enterrados.Essa busca é apenas a superficial ,no íntimo as duas personagens buscam coisas distintas: Wanda procura enfrentar o passado e Ida encontrar sua própria identidade da qual fora esvaziada no convento.
  Agata Trzebuchowska,dona de grandes olhos escuros,concede a ida uma aura de ingenuidade e fascinação pelo desconhecido.Ao mesmo tempo em que Agata Kuleza interpreta a juizá Wanda como uma mulher deprimida e atormentada pelo passado que usa a bebida,o cigarro e até mesmo o sexo para tentar esquece-lo,e usa a aparição da sobrinha como desculpa para finalmente enfrenta-lo.
 Completando o elenco temos Dawid Ogrodnik que interpreta Lis,o jovem saxofonista que pega carona com a dupla principal,é o único personagem do filme que não é deprimido,atormentado por acontecimentos passados e incapaz de seguir em frente,pelo contrário,demonstra otimismo e expectativas com o futuro.



  O filme se passa 1962,uma época em que a Polônia ainda possuía imensa cicatrizes do passado recente,o Holocausto,e do antissemitismo ainda muito forte.e é interessante notar como os elementos visuais do filme representam essa época sombria.
 A câmera do diretor Pawel Pawlikowski é quase sempre estética e seus enquadramentos são longos e bem-pensados.
 Fotografado maravilhosamente por Ryszard Lenczewski e Lukaz Zal que escolheram o preto-e-branco e uma razão de aspecto reduzida em 1.37:1 - o formato de tela quadrado,os filmes atuais são filmados com a razão de aspecto 1.85:1 ou 2.35:1,o formato de tela retangular.Esses elementos são usados para ressaltar a atmosfera opressiva do país gravemente ferido pela Guerra.
 E o modo como os personagens são fotografados na parte inferior do quadro,pequenos e incompletos,demostra sua insignificância diante do peso histórico que carregam.
 O final emblemático faz parecer que para Ida tudo volta a ser exatamente como antes do começo da jornada.mas pequenas cenas sutis - como o riso que escapa durante um jantar e o olhar perdido durante uma oração - mostram o impacto da jornada na garota,que sempre estará lá,apesar do plano que encerra o longa ilustrar como deixou sua história e a do país para trás.

Indicado ao Oscar em duas categorias: Melhor Filme Estrangeiro e Fotografia.

  

 


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Whiplash _ Em Busca da Perfeição

                  

Dirigido e Roteirizado por:Damien Chazelee


             "Não há duas palavras mais danosas do que 'Bom Trabalho' "

 

  Ao assistir Whiplash - em busca da perfeição,foi inevitável lembrar de Cisne Negro - clássico moderno de Darren Aronofsky. Apesar de serem filmes muito diferentes em estética e tom,são muito parecidos em sua temática.A Nina interpretada por Natalie Portman em Cisne Negro e o Andrew interpretado por Miles Teller nesse Whiplash possuem a mesma obsessão:encontrar a perfeição através da arte.Mesmo que isso custe sua saúde física e mental.
  O longa acompanha a história de Andrew Newman um jovem baterista que sonha em ser o melhor de sua geração.Seu sonho parece mais próximo quando o lendário maestro Terence Fletcher (JK Simmons) o convida a tocar em sua banda de jazz,considerada o berço de grandes talentos bem-sucedidos.Mas a postura rígida e militarista do mestre faz com que o garoto se dedique ao instrumento de uma forma obsessiva e auto-destrutiva.
  Esse é o principal tema do filme: a linha tênue que separa ambição e obsessão;incentivo e abuso.




  Escrito e dirigido pelo jovem cineasta Damien Chazelle (de apenas 29 anos,esse é seu segundo longa como diretor), que conduz o filme com o talento e a segurança de um diretor veterano com anos de carreira. Chazelle faz decisões acertadíssimas ao fugir do obvio em várias ocasiões,como ao evitar muitos diálogos expositivos e conduzir o filme através das imagens,com sua câmera frenética faz constante uso de closes na expressão dos atores quando estão tocando ou conduzindo a orquestra.Usa o suor e o sangue como símbolos visuais do esforço máximo de Andrew,e principalmente nunca deixa a música em segundo plano,ela é uma presença tão constante no filme quanto na vida dos personagens.
  Um dos pontos mais positivos do filme é o elenco.
  Miles Teller faz de seu Andrew nossa figura de identificação máxima,acreditamos em sua paixão e torcemos por ele.Ao mesmo tempo não deixa que seu personagem se transforme no clássico herói trágico adicionado toques excessivos de ambição e arrogância,e claro,sua obsessão que prejudica não só a si próprio,mas também as pessoas com quem convive.Sua relação com a garota Nicole - interpretada pela linda Melissa Benoist - é deveras destruidora.
 O veterano JK Simmons explora ao máximo um personagem feito sob encomenda para sua persona dominadora,fazendo de Fletcher um homem assustador,exigente e quase militarista (em vários momentos me lembrou o sargento Hartman -vivido por R. Lee Ermey no clássico Nascido para Matar), e competente de forma quase sobrenatural. Mas humaniza seu personagem com momentos de sensibilidade - como quando chora ao lembrar de um ex-aluno - e até de gentileza - ao falar com a filha pequena de um amigo. Simmons é competente na difícil tarefa de fazer com que o público entenda sua motivação e seu amor pela música, o que nos leva a simpatizar com ele mesmo questionando seus métodos o tempo todo.
  Outro fator que deve ser citado é a montagem brilhante de Tom Cross.Os cortes tem o mesmo ritmo da música o que dá ao filme um ritmo vibrante.Me pareceu um pouco excessiva no começo (lembrando outro filme de Aronofsky - Réquiem para um Sonho) mas chega ao ápice na genial cena final.
   Alias, a cena final - que dura mais ou menos 10 minutos e praticamente nenhuma palavra é dita - o talento combinado de Damien Chazelle e Tom Cross faz com que seja a melhor e mais impactante de todo o longa.O diretor filma a orquestra de forma bastante atipica e Cross a monta com seus cortes acompanhado o ritmo vibrante do jazz.Também é o momento em que Andrew e Fletcher finalmente entram em sintonia se tornado um só,unidos pela música.
  Whiplash poderia ser mais um filme clichê,com herói e vilão convencionais,com a queda e ascensão do protagonista e todos os elementos já conhecidos.Mas graças ao talento dos envolvidos se tronou uma preciosidade.
  É um filme poderoso,angustiante em alguns momentos e muito significativo.Uma obra que,com certeza,merece os aplausos de reconhecimento que seu protagonista tanto cobiça.

Indicado ao Oscar em cinco categorias: Melhor Filme,Roteiro Adaptado,Montagem,Mixagem de Som e Ator Coadjuvante(JK Simmons).